Dor de ouvido: o que pode ser, o que fazer e quando procurar
Conteúdo educativo. Não substitui consulta médica.
Dor de ouvido (otalgia) é um sintoma, não um diagnóstico - e nem toda dor de ouvido é otite. As causas mais comuns são a otite média (no ouvido médio, atrás do tímpano, clássica depois de um resfriado e muito comum em crianças), a otite externa ou "ouvido de nadador" (no canal externo, dói ao puxar a orelha, ligada a água e umidade), o tampão de cera (cerume) e a dor referida (que vem da garganta, de um dente ou da articulação da mandíbula - o ouvido em si está normal). Para aliviar em casa, ajudam a compressa morna, manter a cabeça elevada (a dor piora deitado) e o ouvido seco; o alívio da dor com medicamento costuma ser feito com analgésicos comuns (como o paracetamol e a dipirona) ou anti-inflamatórios (como o ibuprofeno) - qual usar, em que dose e por quanto tempo é decisão médica, e este texto não recomenda tratamento. Um ponto que confunde muita gente: nem toda otite precisa de antibiótico - boa parte das otites médias é viral e melhora sozinha; o antibiótico é exceção, decidida pelo médico caso a caso. Procure atendimento com urgência se houver inchaço, vermelhidão ou dor atrás da orelha empurrando-a para frente (suspeita de mastoidite), saída de pus ou sangue, perda de audição súbita, vertigem ou paralisia de um lado do rosto - e fique atento a bebês que puxam a orelha com febre e a diabéticos com dor intensa. O diagnóstico costuma exigir otoscopia (o médico olhar o tímpano), que é presencial: a teleconsulta tria, orienta o alívio da dor e reconhece o que precisa de exame presencial ou emergência.
- Dor de ouvido é sintoma, não diagnóstico. Nem toda dor de ouvido é otite - pode ser cera, ou uma dor que na verdade vem da garganta, de um dente ou da mandíbula (dor referida).
- Existem dois tipos principais de otite. A média (ouvido médio, profunda, depois de resfriado) e a externa ou "ouvido de nadador" (no canal, dói ao puxar a orelha, ligada a água).
- O jeito da dor é uma pista. Piora ao deitar aponta para o ouvido médio; ao mastigar, para a mandíbula ou o canal; ao engolir, para a garganta.
- Para a dor, a base são os analgésicos comuns. Paracetamol, dipirona e anti-inflamatórios como o ibuprofeno ajudam - mas qual usar e como é decisão médica. Gota no ouvido, só com o tímpano avaliado.
- Nem toda otite precisa de antibiótico. Boa parte das otites médias é viral e melhora sozinha; o antibiótico é exceção, decidida caso a caso pelo médico.
- O alarme é a dor com companhia. Dor atrás da orelha com inchaço, pus ou sangue, febre alta, perda de audição, vertigem ou paralisia no rosto pedem avaliação urgente.
- O diagnóstico costuma ser presencial. A otoscopia (olhar o tímpano) define muito do quadro; a teleconsulta tria, orienta o alívio da dor e reconhece o alarme.
O que pode ser a dor de ouvido (e por que nem toda dor de ouvido é otite)
Dor de ouvido (o nome técnico é otalgia) é um sintoma, não um diagnóstico - e nem toda dor de ouvido é otite. As causas mais comuns são a otite média (no ouvido médio, atrás do tímpano, clássica depois de um resfriado), a otite externa ou "ouvido de nadador" (no canal, que dói ao puxar a orelha, ligada a água), o tampão de cera e a dor referida - aquela que nasce na garganta, num dente ou na mandíbula e "ecoa" no ouvido, mesmo com o ouvido saudável. A primeira pergunta que orienta tudo é se a dor nasce no próprio ouvido ou se vem de fora; reconhecer o seu caso encurta o caminho até o cuidado certo.
O ouvido tem três partes, e saber onde a dor mora ajuda a entender o que está acontecendo. O ouvido externo é o que você enxerga e alcança: a orelha e o canal até o tímpano. O ouvido médio fica logo atrás do tímpano, é uma pequena câmara com ar que se conecta ao nariz por um tubo (a tuba auditiva) - e é por esse tubo que um resfriado "sobe" e vira otite. E o ouvido interno, mais fundo, cuida da audição fina e do equilíbrio. A maioria das dores de ouvido começa no externo ou no médio; o interno costuma dar mais tontura e zumbido do que dor.
Quatro situações cobrem a maioria das dores de ouvido. Vale reconhecer a sua:
| O que pode ser | Como costuma ser | O que costuma estar por trás |
|---|---|---|
| Otite média | Dor profunda e latejante, "por dentro"; costuma vir depois de um resfriado; muito comum em crianças, às vezes com febre; piora ao deitar | Inflamação ou infecção do ouvido médio, atrás do tímpano |
| Otite externa ("ouvido de nadador") | Dor no canal que piora ao puxar a orelha ou mastigar; coceira, ouvido inchado ou "molhado" | Inflamação do canal externo, ligada a água, umidade e ao uso de cotonete |
| Cera (cerume) | Ouvido tampado, audição abafada, às vezes leve desconforto; piora ao cutucar com cotonete | Acúmulo ou rolha de cera no canal |
| Dor referida | O ouvido "dói", mas parece normal; vem junto de dor de garganta, dor de dente ou dor na mandíbula | Origem fora do ouvido: garganta, dente, articulação da mandíbula (ATM) |
Além dessas quatro, há causas menos frequentes que vale conhecer. A mudança de pressão - de avião pousando, de mergulho ou de subir a serra - pode causar dor e ouvido tampado (o chamado barotrauma), porque a tuba auditiva não equaliza a pressão a tempo. Um corpo estranho no canal (comum em crianças, mas também um inseto no adulto) causa dor e desconforto súbitos. E, mais raramente, uma erupção com bolhas dolorosas na orelha e no canal pode ser uma reativação do vírus da herpes-zóster na região do ouvido. São situações que também melhoram com avaliação médica.
A dor de ouvido no avião é um barotrauma: na descida, a pressão da cabine sobe rápido e a tuba auditiva não consegue equalizar a pressão dentro do ouvido, o que "aperta" o tímpano e dói. Para prevenir, engula, boceje, masque chiclete ou faça a manobra de tapar o nariz e soprar de leve durante a subida e, principalmente, a descida; em bebês, oferecer o peito, a mamadeira ou a chupeta ajuda. Quem está muito resfriado tem mais dificuldade de equalizar - se for viajar assim, converse com um médico antes. A dor costuma passar em minutos a horas; se persistir, houver perda de audição ou sangramento, procure avaliação.
A pista que mais ajuda a separar uma da outra: se dói ao puxar a orelha, aponta mais para o canal externo; se a dor é profunda e veio depois de um resfriado, aponta mais para o ouvido médio; se o ouvido está mais tampado do que dolorido, pode ser cera; e se o ouvido parece normal mas dói junto com a garganta ou com um dente, pode ser dor referida. Não dá para fechar o diagnóstico só pela descrição, mas ela encurta bastante o caminho - e é ela que o médico usa para triar.
"Otite" virou sinônimo de dor de ouvido, mas nem sempre é o caso. O tampão de cera e a dor referida (que vem da garganta, de um dente ou da mandíbula) são bem comuns e não são infecção do ouvido. Quando a dor no ouvido aparece junto de dor de garganta forte, vale ver também o nosso guia de dor de garganta e o de amigdalite - a origem pode estar ali.
Otite média × otite externa: como diferenciar
As duas otites mais comuns afetam partes diferentes do ouvido e deixam pistas diferentes. A otite externa é no canal (a parte de fora, que você alcança), liga-se a água e umidade, e sua marca registrada é a dor ao puxar ou tocar a orelha. A otite média é atrás do tímpano (que você não alcança), costuma vir depois de um resfriado, e a dor é mais profunda e latejante, às vezes com febre e sensação de ouvido tampado. Separar as duas importa porque o cuidado muda - mas confirmar qual é costuma exigir o médico olhar o tímpano.
O quadro lado a lado ajuda a reconhecer:
| Otite externa ("ouvido de nadador") | Otite média | |
|---|---|---|
| Onde fica | Canal externo (a parte de fora) | Ouvido médio, atrás do tímpano |
| Pista clássica | Dói ao puxar ou tocar a orelha; coceira | Dor profunda e latejante "por dentro"; piora ao deitar |
| Gatilho comum | Água, umidade, natação, cotonete | Gripe ou resfriado, alergia (mais em crianças) |
| Costuma vir com | Canal inchado, coceira, secreção, ouvido "molhado" | Febre, ouvido tampado; em bebês, irritabilidade |
| Ajuda no alívio | Manter o ouvido seco | Cabeça elevada; tratar a congestão do resfriado |
Por que separar importa? Porque o cuidado muda. Manter o ouvido seco, por exemplo, ajuda bastante na otite externa - e a externa costuma vir justamente depois de muito contato com água. Já a otite média costuma aparecer na esteira de uma gripe ou resfriado, quando a congestão atrapalha a drenagem do ouvido. Existe ainda uma diferença que o leigo raramente percebe: a otite externa dói bastante ao encostar na orelha, enquanto a otite média pode doer mesmo sem ninguém tocar.
Como o médico distingue as duas. A ferramenta principal é o otoscópio, um pequeno aparelho com luz e lente que ilumina o canal e o tímpano. Na otite externa, o médico vê o canal inchado, avermelhado, às vezes com secreção; na otite média, o tímpano costuma estar abaulado, avermelhado ou com líquido atrás. Também ajuda a história: começou depois de nadar ou depois de um resfriado? Dói ao puxar a orelha ou por dentro? É essa combinação de exame e história que fecha o diagnóstico - e por isso a otoscopia, que é presencial, tem tanto peso.
Nem toda otite média é igual
Dentro da otite média existem variações que explicam por que umas doem e outras "só entopem" o ouvido:
- Otite média aguda. É a clássica, com dor, e às vezes febre, geralmente depois de um resfriado. É a que mais preocupa a criança à noite.
- Otite média com efusão (secretora). Fica líquido atrás do tímpano sem infecção ativa. Costuma doer pouco ou nada, mas deixa o ouvido tampado e a audição abafada - comum depois de uma otite aguda ou de resfriados de repetição. Em crianças, pode atrapalhar a audição e a fala e merece acompanhamento.
- Otite crônica. Quando a inflamação ou a secreção se arrastam por semanas, às vezes com o tímpano perfurado e saída de secreção recorrente. Precisa de avaliação, muitas vezes com otorrino.
Confirmar qual é, no entanto, costuma exigir o médico olhar o canal e o tímpano - e é por isso que parte dos casos precisa de avaliação presencial.
Muita gente chama de "otite interna" o que os médicos chamam de labirintite ou outras alterações do ouvido interno. Nesses casos, o sintoma principal costuma ser tontura, vertigem e zumbido - e não a dor. Se a sua queixa maior é o mundo girando, veja o nosso guia de labirintite e o de tontura.
Dor de ouvido de um lado, ao engolir, ao mastigar ou ao deitar (e como dormir)
O jeito como a dor de ouvido se comporta é uma pista da causa. Dor só de um lado é o mais comum e não é sinal de gravidade por si só. Dor que piora ao mastigar ou ao abrir a boca aponta mais para a articulação da mandíbula (ATM) ou para o canal externo; dor ao engolir costuma vir da garganta (dor referida); e dor que piora ao deitar é típica da otite média, porque a pressão no ouvido médio aumenta. Para dormir com dor de ouvido, manter a cabeça mais elevada (um travesseiro a mais, ou dormir com o ouvido dolorido para cima) e uma compressa morna costumam aliviar o suficiente para descansar.
Prestar atenção no que piora e no que alivia a dor é uma das informações mais úteis que você leva para a consulta. Veja o que cada padrão costuma sugerir:
- Dor de ouvido de um lado só. É o padrão mais comum e, sozinho, não indica gravidade - a maioria das otites e das dores referidas é unilateral. Dor nos dois ouvidos ao mesmo tempo aparece mais em crianças com resfriado e também costuma ser benigna. O que muda a conversa não é o lado, e sim a companhia: febre alta, pus, dor atrás da orelha (veja os sinais de alarme).
- Dor ao mastigar ou ao abrir a boca. A articulação da mandíbula (ATM) fica bem na frente do ouvido; quando ela está sobrecarregada (bruxismo, tensão, apertar os dentes), a dor é sentida "no ouvido". A otite externa também dói ao mastigar, porque o movimento mexe no canal inflamado.
- Dor ao engolir. Costuma apontar para a garganta - uma faringite ou amigdalite que "sobe" para o ouvido pelos nervos que os dois dividem. Nesse caso, o ouvido em si costuma estar normal.
- Dor que piora ao deitar. É a marca da otite média: deitado, a pressão e o líquido no ouvido médio aumentam, e a dor incomoda mais justamente na hora de dormir. Por isso a dor de ouvido "ataca à noite" com tanta frequência.
- Dor ao puxar a orelha. Aponta para o canal externo (otite externa). É um teste simples que você mesmo pode fazer: puxe de leve o lóbulo - se doer bastante, o canal provavelmente está inflamado.
- Dor com o ouvido tampado, sem dor forte. Aponta mais para cera, líquido atrás do tímpano ou a congestão de um resfriado do que para uma infecção aguda.
Vale também reparar em quando a dor começou. Dor que surge durante ou logo após nadar fala a favor de otite externa; dor que aparece alguns dias depois de um resfriado, de otite média; dor que começou na descida do avião ou num mergulho, de barotrauma; e dor que veio junto de uma dor de dente ou de ranger os dentes à noite, de origem no dente ou na mandíbula.
O tipo de dor também conta. A dor latejante (que pulsa junto com o coração) e "por dentro" combina mais com otite média; a dor em pontada ou queimação no canal, com otite externa; e um desconforto surdo com ouvido cheio, com cera ou líquido. Quando a dor vem acompanhada de zumbido ou de queda de audição, vale registrar isso - pode indicar cera, líquido atrás do tímpano ou envolvimento do ouvido interno, e ajuda o médico a direcionar (veja zumbido no ouvido). Nada disso fecha o diagnóstico sozinho, mas o conjunto encurta o caminho.
A dor de ouvido quase sempre piora deitado, e a noite mal dormida piora tudo. O que costuma ajudar: elevar a cabeceira ou usar um travesseiro a mais (ficar mais reclinado reduz a pressão no ouvido); deitar com o ouvido dolorido para cima, não sobre o travesseiro; aplicar uma compressa morna sobre a orelha por alguns minutos antes de dormir; e combinar isso com o alívio da dor orientado pelo médico (veja a seção de remédios). Se mesmo assim a dor não deixa dormir e vem com febre alta, é sinal de procurar avaliação.
O que fazer agora: o que é bom para a dor de ouvido em casa
Enquanto você não passa pelo médico, o objetivo é aliviar a dor com segurança. O que costuma ajudar: uma compressa morna sobre a orelha; manter a cabeça mais elevada (a dor de ouvido piora deitado); manter o ouvido seco na suspeita de otite externa; e hidratar-se e descansar, sobretudo se a dor veio depois de um resfriado. O que não ajuda e pode piorar: enfiar cotonete, pingar qualquer coisa no ouvido por conta própria e usar "vela de ouvido". O alívio da dor com medicamento é parte central do cuidado - e é o tema da próxima seção.
As medidas caseiras não "curam" a otite, mas tornam a espera até a consulta muito mais tolerável e são seguras para quase todo mundo. O que costuma ajudar a atravessar os primeiros dias:
- Compressa morna na orelha. Um pano morno (não quente) ou uma bolsa térmica em temperatura amena sobre o ouvido, por 10 a 15 minutos, relaxa e conforta. Alguns preferem compressa fria - vale o que alivia mais para você.
- Cabeça elevada. Dormir mais reclinado ou com um travesseiro a mais costuma aliviar, porque a dor de ouvido piora deitado.
- Mantenha o ouvido seco. Evite entrar água; seque bem a parte de fora após o banho. Vale especialmente na suspeita de otite externa - se precisar, use uma touca no banho e não mergulhe até melhorar.
- Alívio da dor conforme orientação. Tratar a dor é prioridade. Os analgésicos comuns são a base; qual usar e como, quem orienta é o médico (detalhe na seção sobre remédios).
- Hidrate-se e descanse. Sobretudo se a dor veio na esteira de um resfriado. Beber líquido e, em adultos e crianças maiores, mascar chiclete, bocejar ou fazer a manobra de "assoar com o nariz tampado de leve" ajuda a "destampar" o ouvido ao abrir a tuba auditiva.
- Trate a congestão do nariz. Como a otite média costuma vir de um resfriado, aliviar o nariz entupido (com soro fisiológico, por exemplo) ajuda o ouvido médio a drenar.
E quando a dor de ouvido aparece "do nada", sem resfriado, sem água e sem dor de garganta? Ainda assim, comece pelas mesmas medidas de conforto e observe: muitas vezes é o começo de uma otite ou de uma dor referida que só vai dar as outras pistas nas próximas horas. O que orienta a conduta não é ter começado "do nada", e sim a intensidade da dor e a companhia dela - febre, secreção, tontura, dor atrás da orelha. Se a dor é forte ou não melhora, não espere o quadro se completar para procurar avaliação.
O que é bom para dor de ouvido: o que funciona e o que é mito
Circula muita receita caseira para dor de ouvido. Vale separar o que é seguro do que pode fazer mal:
- Compressa morna: ajuda e é segura. Pode usar.
- Alho, cebola, azeite morno ou água oxigenada dentro do ouvido: não use. Não têm eficácia comprovada para a dor e, se o tímpano estiver perfurado, podem lesar o ouvido. A regra vale para qualquer líquido pingado por conta própria.
- Vela de ouvido (ear candling): não funciona e pode queimar. Fuja.
- Secador de cabelo no ouvido para "secar": no máximo morno, à distância e por pouco tempo - nunca quente e nunca colado, pelo risco de queimadura.
- Enfiar cotonete, grampo ou qualquer objeto no canal - empurra a cera para o fundo, machuca o canal e pode até furar o tímpano. O ouvido se limpa sozinho.
- Usar "vela de ouvido" (ear candling) - não tem eficácia comprovada e pode causar queimadura e lesão no tímpano.
- Pingar azeite, água oxigenada, álcool ou qualquer gota por conta própria - se o tímpano estiver perfurado, várias dessas coisas são contraindicadas e podem lesar o ouvido. Quem decide a gota certa é o médico.
- Tomar antibiótico por conta própria ou "que sobrou" - boa parte das otites não precisa, e o uso errado traz resistência e efeitos colaterais.
- Ignorar dor forte com febre, pus ou dor atrás da orelha achando que "é só otite" - esses sinais pedem avaliação (veja os sinais de alarme).